quarta-feira, 15 de junho de 2011

Incluindo a banca da cozinha

(Foto tirada da internet)

Fazia já algum tempo que ele ali se encontrava parado, em frente aquela porta. Na sua mão as chaves que abririam aquele pórtico que permitiria que ele passasse para além dele. Estava indeciso. Não sabia o que fazer. Sabia que tinha de entrar, no entanto não o queria fazer. Entrar ali, sabia-o ele, iria ser algo de doloroso.

Olhou mais uma vez para as chaves que tinha na mão, tentanto perceber como algo tão pequeno parecia pesar uma tonelada. Por fim tomou uma decisão e com a outra mão pegou naquele pequeno objecto e introduziu-o na ranhura, rodando-o lentamente. Cada volta que a chave dava na fechadura fazia um barulho ensurdecedor como um martelo a bater numa bigorna enquanto amaciava o aço. No seu peito sentia uma forte angústia como se alguém tivesse colocado as duas mãos à volta do seu coração e o apertasse com uma força sobrehumana.

Por fim a porta cedeu uns milímetros, sinal de que estava aberta. Fechou os olhos e respirou fundo na tentativa de ganhar coragem. Quando se sentiu capaz de o fazer, abriu os olhos e olhou para as placas que se encontravam no chão ao seu lado, encostadas à parede e onde se podia ler: "VENDE-SE".

Sabia que tinha que entrar naquela casa, naquela que tinha sido a sua casa nos últimos 15 anos, para afixar aquelas placas nas janelas. Sabia que tinha que o fazer, mas não o queria fazer.

Aquela tinha sido a sua casa nos últimos 15 anos. Aquela tinha sido a casa deles. Tudo naquela casa tinha um enorme significado para ele. 

O quarto lembrava-lhe os maravilhosos momentos de felicidade que vivera com ela, lembrava-lhe como era bom adormecer e acordar nos seus braços. Lembrava-lhe as noites mal dormidas quando eram acordados de madrugada pelo chorar do bébé que dormia ali ao lado.

A sala lembrava-lhe os momentos vividos ao longo desses anos com os amigos e com a família, todos os aniversários ali comemorados, os jantares de Natal e de Ano novo, e todos aqueles almoços e jantares que eram apenas isso, um almoço ou um jantar com a família ou com os amigos. Lembrava-lhe os serões ali passados a ver um filme na televisão, aconchecados pelo calor que emanada da lareira.

A casa de banho trazia-lhe à memoria a primeira vez que dera banho ao seu bébé, todas as brincadeiras quando lhe dava banho ao longo do tempo e toda aquela rotina que fora mudar a sua fralda e cuidar de que tivesse uma pele sempre hidratada. Fora ali que lhe desinfectara as primeiras esfoladelas nos seus joelhos quando caíra a jogar à bola na rua.

A cozinha, incluindo a banca da cozinha lembravam-lhe as maravilhosas refeições que ambos alí haviam preparado, as papas e as sopas para o bébé deles, momentos que resultavam de uma total sintonia cujo resultado final era aquela explosão de sabores que ainda agora era capaz de sentir na sua boca se fechasse os olhos.

Tudo isto lhe sussurava ao ouvido que voltasse a fechar a porta, que voltasse as costas e que não afixasse aquelas placas.

Mas no fundo sabia que tinha que o fazer. Sabia que a sua vida mudara radicalmente hà dois anos atrás quando o amor da sua vida lhe havia sido roubado por aquela doença maldita e silenciosa que era o cancro. Sabia que tinha que continuar a sua vida. Sabia que devia isso ao seu filho. Sabia que não podia continuar ali, pois todas as divisões daquela casa, incluindo a banca da cozinha, tinham um significado tremendo para si.  

Sabia que tinha que refazer a sua vida noutro local, com o seu filho e com o amor da sua vida, pois apesar dele ter partido iria continuar para sempre com ele. Iria continuar no seu pensamento. Iria continuar no seu coração.

Decidiu que este seria o primeiro dia de uma nova vida, uma vida na qual iria viver em função da felicidade do seu filho.

Respirou fundo, abriu a porta de casa e .... entrou. 



Este texto foi escrito para o concurso do blog Including the Kitchen Sink, tentando de uma forma singela retribuir a homenagem feita neste blog ao Utopia Realista.


8 comentários:

Luís Coelho disse...

Bom dia amigo
Passei por aqui e gostei do estilo e dos temas.
Continuarei se não houver inconveniente.
Uma história ou uma ficção ?
Por vezes a vida prega-nos estas partidas e outras ainda piores.

Utópico disse...

Felizmente é uma ficção, mas acredito que seja uma situação possível de acontecer e que sem dúvida deixa marcas em qualquer um.

Está convidado a aparecer sempre que quiser.

Eva Gonçalves disse...

:)! Boa! E Rápido, rrssss!! Não puseste um link para o meu post do concurso, mas tudo bem, não faz mal,fiz uma página doconcurso para esse efeito. Não vou fazer mais comentários, para não influenciar outros possíveis participantes, mas desde já, gostei que tivesses aderido à ideia que no fundo é uma brincadeira :) Obrigada. beijinho grande

Utópico disse...

Sorry. Tinha colocado um link para o post do concurso pois não me tinha apercebido de uma página para o efeito.

Já corrigi.

É o que dá ser maçarico nestas coisas da blogosfera.

Briseis disse...

E-he... Gostei, caro Uópico! Por acaso sigo o blog including the kitchen sink, mas tenho andado um pouco por fora e ainda nem sabia do concurso... Vou já estudar bem o caso! =)

pinguim disse...

É esta a primeira colaboração que leio para responder ao desafio da Eva e acho o texto muito bom.
Parabéns.

Mz disse...

Realidade ou ficção, a mensagem é de esperança, que é o que tem de ser quando esta dor nos bate à porta.

Boa!
Eu também concorri :)

Bjs

Utópico disse...

Já me tinha abercebido do seu texto, mas ainda não tive tempo de o ler com cuidado.

o tempo tem escasseado, mas prometo, como já disse num post à algum tempo, que como não tenho tido tempo de seguir todos os blogs como gostaria, que o irei fazendo selecionando um ou dois por dia.

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