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sábado, 16 de abril de 2011

Momento de Liberdade


Toda a sua vida tivera havia seguido as regras que lhe eram impostas. Na sua infância, embora esta tivesse sido alegre, divertida e cheia de brincadeiras, tinha que seguir as ordens dos seus pais e dos seus avós. Na escola tinha que obedecer aos professores, seguir as regras que existiam, vestir a farda do colégio todos os dias. Nos seus tempos livres aprendia música e fazia atletismo, e também aqui o seu mundo estava repleto de disciplina e regras.

Depois veio a faculdade e as obrigações mantinham-se. Embora não fossem impostas de forma expressa, a necessidade de tirar boas notas para concluir o curso com uma boa mádia e assim poder arranjar um bom emprego e ter sucesso, era um espartilho invisível que condicionavam a sua liberdade. Continuava a fazer atletismo, treinando 3 vezes pos semana. Naquela altura na sua vida o seu dia dividia-se entre o estudo e os treinos de atletismo. Pouco tempo lhe restava para fazer o que ela realmente queria, para fazer o que lhe "desse na telha!".

Acabada a faculdade, começou a procura de emprego e as responsabilidades profissíonais que daí vinham. Passava o dia a correr de casa dos pais para o trabalho; do trabalho para casa dos pais; de casa dos pais para os treinos de atletismo; dos treinos de atletismo para casa dos pais, e ainda tinha que ajudar em casa, passando a ferro, lavar a loiça, limpar a casa, ir às compras. 

Não tinha tempo para si. Não tinha tempo para fazer o que queria, o que lhe apetecesse.

Mas hoje era um dia diferente. Hoje era o primeiro dia de uma vida nova. Tinha deixado o atletismo, ou pelo menos a vertente da competição. Agora corria apenas quando queria, e porque queria. Mudara de emprego e criara a sua própria empresa. Trabalhava como consultora de imagem, fazia o que queria e tinha ganho uma autonomia financeira invejável. Comprara uma casa para morar sozinha. Ainda que adorasse os seus pais, necessitava do seu espaço, do seu cantinho onde pudesse ter a sua liberdade.

Hoje era o primeiro dia em que morava sozinha. Levantou-se cedo, calçou os seus ténis e saiu para a rua para ir correr. Tinha corrido durante 2 horas e apesar de cansada sentia-se bem, sentia-se feliz, sentia-se livre. Aproveitou o sossego de ser Domingo e de ainda serem 9h da manhã para se deitar no chão, no lancil do passeio, mesmo juntinho à estrada. Deixou-se ficar ali a observar o céu, invadida pelo suave aroma da relva intensificado pelo facto de ter sido recentemente regada, o que lhe dava aquele cheiro tão característico.

Continuava a adorar os seus pais. Continuava a ter que seguir as regras que a sociedade lhe impunha. Mas aquele momento era só seu. Naquele momento sentia-se livre.

Aquele era o seu Momento de Liberdade !!


Esta é a minha participação na 11ª edição Visual do blog Projecto Créativité


sexta-feira, 15 de abril de 2011

O meu mundo és tu.

(Foto tirada da internet)

Naquele fim de tarde chegara a casa cabisbaixo. Estacionou o Ferrari na garagem de sua casa. Desligou o motor, saiu do carro, dirigindo-se para a saida da garagem. Ao chegar à porta não resistiu e voltou-se para trás para olhar o seu "puro sangue" uma última vez. Amanhã, àquela mesma hora a garagem estaria vazia depois de um reboque o ter vindo buscar como parte do pagamento ao banco. Lentamente foi fechando o portão da garagem sem conseguir desviar o olhar daquele vermelho vivo, daquele que era o carro dos seus sonhos.

Foi calcurreando o caminho de pedras desenhado na relva do jardim que envolvia a sua casa, uma luxuriante vivenda situada num local isolado e junto ao mar. Parou junto à piscina e por momentos ficou a ver o seu reflexo na água. Veio à sua memória um mar de recordações de tempos felizes vividos naquela casa, naquele jardim, naquela piscina. Dali a uma semana a sua casa iria ser leiloada pelo banco para pagar parte da sua dívida ao banco. Começava a fazer-se sentir uma fria brisa, normal ao entardecer, que se ia tornando cada vez mais desagradável.

Levantou a gola do seu casaco e encaminhou-se para dentro de casa. Caminhava lentamente. O peso dos seus pés crescia exponencialmente e começava a ser sobre-humano o esforço que tinha que fazer para dar um novo passo. 

Entrou em casa e dirigiu-se à sala. Serviu-se de um whisky. Puro. Sem gelo. Queria sentir toda a força daquele whisky velho a descer pela sua garganta. Talvez assim conseguisse também arranjar forças para enfrentar o futuro. Foi até à janela da sala e admirou o mar, dourado, sobre a luz de um sol que desaparecia no horizonte. Dentro de uma semana não mais poderia gozar daquela vista. Ia morar no centro da cidade, numa apartamento minúsculo e infecto que conseguira alugar numa cave. Era o mais barato que tinha encontrado.

Ali, naquele momento, teve então consciência de que era um PERDEDOR. Tinha apostado na bolsa, e tinha perdido tudo. Tinha perdido uma casa de sonho. Tinha perdido o carro dos seus sonhos. A sua mulher abandonara-o quando soube que ele tinha perdido tudo, acusando-o de ser egoísta, de não pensar no futuro deles, no futuro do seu filho.   

Pensou em abrir a janela, percorrer a curta distância da varanda e saltar para a falésia de encontro ao mar. Demoraria poucos segundos a percorrer na vertical os 60 metros que o separavam do mar, do vai e vem daquelas ondas que lhe trariam a calma que perdera e acabaria de vez com o seu sofrimento, com os seus problemas.

Absorto que estava nos seus pensamentos não se apercebeu dos passos que vindos de trás se aproximavam dele. De repente, sentiu que uma pequenina mão, macia e quente, segurava a sua mão gelada.

Olhou para baixo e viu o rosto inocente de uma criança que olhava para cima, sorrindo e que com a ternura característica das crianças disse:

- Pai, eu gosto muito de ti.

Naquele momento, percebeu que não era um PERDEDOR. Percebeu que tinha tudo aquilo que desejava. Percebeu que não havia nada de mais maravilhoso. Percebeu que iria usar todas as suas forças para lutar pelo seu filho, para o fazer feliz, para o amar, e para que ele sentisse orgulho nele, sentisse orgulho no seu pai.

Esta é a minha participação na  16ª Edição De-sa-fi-o do blog Projecto Créativité


 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Suave brisa


O dia já ia longo estando quase a acabar. A luz dourada do sol que quase se sentava no horizonte era o prenuncio de uma noite de Outono que se aproximava velozmente. À sua volta um ensurdecedor silêncio, apenas quebrado de quando em vez pela harmoniosa melodia de um ou outro pássaro que por ali passava.

Maria estava sentada com o seu olhar fixo no horizonte. Um horizonte carregado de tons castanhos e alaranjados oriundos de longas árvores que ondulavam ao sabor do vento, produzindo um belo e suave murmúrio. O seu pensamento estava distante, muito distante dali. 

Maria deambulava calmamente por entre um conjunto de árvores que projectavam no chão as sombras ondulantes dos seus ramos e folhas. Junto delas existia um conjunto de bancos de jardim onde alguns idosos sentados conversavam entre si, quem sabe contando aventuras dos seus gloriosos tempos de juventude que não regressariam mais. Mais à frente existia uma elegante mesa de jardim, em ferro, onde dois homens de meia idade e tez morena aproveitavam o final do dia para jogarem uma calma partida de xadrez.

Maria caminhava lentamente sentindo no seu rosto a suave brisa do vento de Outono, ouvindo a melodia dos pássaros, o canto de uma cigarra mais à frente, o suave estalar das folhas alaranjadas caídas no chão, sempre que as pisava. 

Ao chegar junto de uns baloiços, Maria parou. Olhou para as correntes que suspensas de uma barra horizontal de metal estavam unidas por uma tira de lona preta que fazia de assento e decidiu sentar-se.

Começou a balançar lentamente as suas pernas e foi ganhando impulso, foi ganhando velocidade. Ao seu lado, no outro baloiço estava a sua filha de 7 anos, Rita, com os seus cabelos ruivos encaracolados a esvouçar na suave brisa de fim de tarde.

Maria foi ganhando velocidade, balouçando-se cada vez mais alto. Ritinha, a sua filha, tentava a todo o custo subir mais alto que a sua mãe, mas as suas pernitas pequenas não lhe facilitavam a tarefa. As duas, mãe e filha, competiam uma com a outra para ver quem subia mais alto, para ver quem conseguia tocar o Sol. A felicidade transbordava das suas faces, as gargalhadas sucediam-se acompanhadas pelo suave chiar das correntes dos baloiços. Os seus cabelos esvoaçam na suave brisa de fim de tarde. 

Nada nem ninguém poderia estragar aquele momento, aquele momento só delas, aquele momento em que mãe e filha se divertiam como se fossem duas irmãs, como se fossem as duas melhores amigas.

Maria ouviu então um sussuro do seu lado direito. Voltou a cara mas não viu ninguém. Apenas sentiu a brisa, a suave brisa do entardecer, que lhe provocou um arrepio frio que subiu pelas suas costas acima, uma sensação de desconforto. Voltou a cara para o seu lado esquerdo, para o outro baloiço, mas a sua filha, a sua Ritinha com os seus cabelos ruivos encaracolados não estava mais lá. O baloiço estava parado, apenas ondulando ao sabor da suave brisa.

Maria esticou as suas pernas e parou de repente. A sua filha não havia estado ali consigo. Maria tinha ido sozinha até ao parque, sentara-se no baloiço e começara a baloiçar. Queria voltar a sentir a mesma felicidade que tantas vezes havia sentido ali com a sua filha Rita. Mas a sua felicidade fora abruptamente cortada há três meses atrás quando a sua filha baloiçava ali mesmo e Maria havia voltado as costas para lhe comprar um gelado a um vendedor que por ali passava, e quando se voltou novamente a sua filha havia DESAPARECIDO.

Agora apenas Maria estava ali. Maria e a suave brisa do entardecer.

Será que algum dia Maria iria encontrar novamente a filha? O que lhe teria acontecido? Estaria bem? Estaria com frio? Estaria num baloiço?

Maria sentiu uma lágrima soltar-se, deslizar suavemente pelo seu rosto e secar-se com a suave brisa que soprava no final daquela tarde. A mesma suave brisa que tantas vezes sentira com a sua filha naquele jardim, naqueles baloiços.     
   
Esta é a minha participação na 10ª Edição visual do blog Projecto Créativité.

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