quinta-feira, 3 de março de 2011

O Fim da Inocência

                                                                    (Foto tirada do Google)

Os ponteiros do relógio rodopiavam no seu movimento contínuo, sem descanso, sem retorno.

O desespero dele aumentava, cada vez que olhava para o relógio redondo, pendurado naquela parede branca, nua, fria, despida de qualquer elemento que tornasse a sala em que se encontrava mais acolhedora.

O relógio marcava 1 hora da manhã. Havia 3 horas que se encontrava naquela sala sombria e rudemente mobilada, onde sobressaíam as cadeiras de aspecto desconfortável . O seu corpo começava a ficar dormente, dorido, anestesiado. À sua esquerda, duas portas brancas, onde sobressaiam três letras vermelhas colocadas no centro de um pequeno rectângulo de vidro: U.C.I (Unidade de Cuidados Intensivos).

Apenas três horas tinham decorrido desde que o seu filho passara por aquelas portas mas parecia que tinha decorrido uma década. Ele não tinha notícias, não sabia como ele estava, ninguém lhe dizia nada. A angústia consumia-lhes as entranhas provocando-lhe naúseas.

Apesar de não ser supersticioso, o seu dia tinha sido azarado. O despertador não tocou à hora prevista. Estava atrasado para ir trabalhar. O esquentador avariou. Apesar de ser Inverno suportou o duche de água gelada e saiu de casa a correr. Chuvia torrencialmente. O trânsito estava caótico. Com a pressa de chegar ao trabalho, passou um sinal vermelho e ..... bateu com o carro. O embate foi grande. Desfez a frente do carro. A tentativa de chegar mais depressa ao trabalho atrasara-o ainda mais. O seu seguro automóvel seria agravado, e teria que pagar o arranjo do seu carro porque o seguro não o cobria. Era culpado. Ia ficar sem carta durante um mês. 

Atrasado e sem carro, restava-lhe tentar chegar o mais cedo possível ao emprego. Não tinha chapéu de chuva pelo que chegou ao emprego completamente encharcado. Faltavam 5 minutos para a sua reunião com um dos clientes mais importantes da empresa. A reunião correu mal, não estava concentrado. Perdeu o cliente. À tarde recebeu uma carta do banco a informá-lo que a sua casa ia ser colocada à venda num leilão para pagar as prestações em dívida. Apenas mais uma dívida a somar a tantas outras que se haviam acumulado nos últimos meses: o carro, a escola do filho, o cartão de crédito, a electricidade, e muitas outras.

Ao fim da tarde foi chamado aos Recursos humanos da empresa e informaram-no que fora despedido.

Não podia acreditar que tudo isto lhe estava a acontecer. O mundo desabava. Estava perdido, desorientado, angustiado, ENRAIVECIDO.

Caminhou sozinho para casa, angustiado, ENRAIVECIDO. Não sabia o que fazer. Apetecia-lhe morrer, desaparecer. Mas não podia abandonar a sua família. Caminhou desolado. Não reparava no caminho que seguia. Fazia-o de uma forma automática, inconsciente. Ia desatento, e ia sendo atropelado. Ficou ENRAIVECIDO. ENRAIVECIDO com o condutor que o ia atropelando. ENRAIVECIDO por não ter morrido.

Antes de chegar a casa decidiu parar no café da esquina. Precisava de uma bebida. Precisava de descontrair, de se acalmar, de aclarar as suas ideias. Precisava de pensar no que iria fazer da sua vida. Entrou. Viu um mesa vazia e sentou-se. Fez sinal ao empregado e pediu uma cerveja. Soube-lhe bem. Precisava de mais uma. Precisava de outra...... e outra...... e outra..... e outra..... e outra ........ e mais uma.

Uma hora depois, e 10 cervejas depois, saiu do café e dirigiu-se para casa. Entrou, posou a carteira, as chaves e o telemóvel em cima da mesa da cozinha. Sentiu o seu filho correr para ele. Ele vinha contente e a rir-se, deu-lhe o beijo na cara e disse-lhe: "Pai vi uns ténis muito giros, por favor compra-me os ténis.".

De repente sentiu-se novamente ENRAIVECIDO e desatou a bater no filho. Bateu, bateu sem parar, quando de repente o viu caido no chão inanimado. Tinha batido com a cabeça na parede e sangrava copiosamente. Agarrou no seu telemóvel e chamou uma ambulância: "Por favor Salvem o meu FILHO".

Agora alí estava ele na sala de espera da UCI, completamente desesperado. Era o responsável pelo fim da inocência do seu filho. Mas mais do que isso, tinha sido capaz do acto mais ignóbil, mais repudioso, repugnante, vergunhoso e odioso: Tinha batido numa criança, o seu filho.... o seu filho.

Não conseguia compreender como tinha sido capaz de cometer um acto tão hediondo, como podera bater daquela maneira em alguém tão inocente como o seu filho. O stress, os azares que estava a atravessar, não poderiam servir de desculpa para acto tão hediondo.

Ainda que um dia o seu filho o viesse a perdoar, ele nunca se perdoaria a ele próprio. Naquele dia tinha ultrapassado todos os limites. 


Texto para o tema de Março/2011 ("Violência") da Fábrica de Letras.




13 comentários:

chica disse...

Forte, profundo texto.Ótima participação!beijos,chioca

Briseis disse...

Há dias em que um gajo não devia levantar-se... e ainda ninguém inventou uma geringonça que avise quando são esses dias!!!

Sus disse...

Sem dúvida que foi um dia cheio, não havia necessidade de o encher com cerveja, para o terminar de uma forma ainda mais triste.
Infelizmente esta realidade acontece todos os dias, e os dias nem precisam de ser tão azarados para que pais batam nos filhos a ponto de os colocarem no hospital.

Utópico disse...

Sus...

é verdade, e por isso deixo aqui esta reflexão pois por vezes com muito menos isto acontece. Utilizando como metáfora uma panela de pressão as pessoas deveriam ir aliviando a pressão a pouco e pouco para que a panela não rebente e não percam a cabeça e aconteçam situações destas. Eu não consigo perceber como é que alguém é capaz disto, e até de muito mais.

Mz disse...

É necessário uma força muito grande para se ultrapassar os piores momentos na vida. Hoje, e de uma forma brutal face às expectativas criadas na nossa sociedade, muitas famílias estão destruturadas, desgastadas psicológicamente, fisicamente e económicamente.
Infelizmente são os mais frágeis são as maiores vítimas.

Utópico disse...

Ainda assim existem comportamentos que serão sempre inadmissíveis. Cabe a cada uma de nós arrnajar forças, e formas de descompressão para evitar que este tipo de situações aconteçam.

Fê-blue bird disse...

Uma excelente participação, magnífico texto, um retrato "real" demais.
Parabéns!
Bjos

White Wolf disse...

A questão para mim é tipo aquela coisa: "Sei que não devia, mas não consigo parar"... A verdade é que normalmente isso só acontece quando não temos travões... E porque será? Já há algo muito desgastado, muito cheio e farto.

Um texto fantástico, parabéns. Um conteúdo de esfriar o sangue.

Natália Augusto disse...

Há alturas da vida em que tudo corre mal, de facto. Não obstante, entrar num bar para esquecer, beber desalmadamente e descarregar, a fúria, a raiva, o ódio num ser indefeso não tem perdão. Ainda mais tratando-se de um pai a bater irracionalmente no filho.
No fim da narrativa, diz-se que o pai nunca se perdoará! Espero que todos os pais que ajam assim não se arrependam nunca. Não acredito também que o filho, vítima de violência paterna, lhe perdoe. Seria pedir de mais!

JGCosta disse...

Chegou a doer no meu coração quando o seu texto se materializou em minha mente!

Quantas histórias infelizmente não tem um final assim, onde no lugar do amor o ódio momentâneo é colocado! Um segundo de loucura e uma besteira para remoer para sempre!

Parabéns pela reflexiva participação!

Abraços renovados!

Utópico disse...

Fê-Blue Bird: Infelizmente

White Wolf: O problema é que nada desculpa isto. Não se pode apenas dizer que não se conseguiu parar. O nosso inconsciente não pode permitir de forma alguma que se chegue a este extremo. Mas infelizmente estas situações existem, são reais.

Utópico disse...

Natália:

Um pai bater irracionalmente num filho é algo que nunca deveria acontecer, mas infelizmente acontece. Muitas vezes repetidamente, e escamoteadas por terceiros. Por vezes quando descobertas estas situações, as criançãs são retiradas às familias com o intuito de as proteger. Sentem-se mal-amadas, abandonadas, sós e muitas vezes com traumas que muito dificilmente conseguem ultrapassar.

Sandra disse...

A Violência vem acompanhando o Mundo desde o seu principio. É uma pena que ainda existe, das mais diversas formas. Tudo é muito triste. O que nos resta é levantar a bandeira da Paz.. Proclamar por ela.
A interação de amigos tbém entrou nesta..
http://sandrarandrade7.blogspot.com/2011/03/coletiva-tema-violencia.html
Não podemos permitir o seu alastramento. Temos sim é que ajudar a combater e cortar as raízes.
Carinhosamente venho compartilhar contigo este texto.
Sandra

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