(Foto tirada do Google)
Os ponteiros do relógio rodopiavam no seu movimento contínuo, sem descanso, sem retorno.
O desespero dele aumentava, cada vez que olhava para o relógio redondo, pendurado naquela parede branca, nua, fria, despida de qualquer elemento que tornasse a sala em que se encontrava mais acolhedora.
O relógio marcava 1 hora da manhã. Havia 3 horas que se encontrava naquela sala sombria e rudemente mobilada, onde sobressaíam as cadeiras de aspecto desconfortável . O seu corpo começava a ficar dormente, dorido, anestesiado. À sua esquerda, duas portas brancas, onde sobressaiam três letras vermelhas colocadas no centro de um pequeno rectângulo de vidro: U.C.I (Unidade de Cuidados Intensivos).
Apenas três horas tinham decorrido desde que o seu filho passara por aquelas portas mas parecia que tinha decorrido uma década. Ele não tinha notícias, não sabia como ele estava, ninguém lhe dizia nada. A angústia consumia-lhes as entranhas provocando-lhe naúseas.
Apesar de não ser supersticioso, o seu dia tinha sido azarado. O despertador não tocou à hora prevista. Estava atrasado para ir trabalhar. O esquentador avariou. Apesar de ser Inverno suportou o duche de água gelada e saiu de casa a correr. Chuvia torrencialmente. O trânsito estava caótico. Com a pressa de chegar ao trabalho, passou um sinal vermelho e ..... bateu com o carro. O embate foi grande. Desfez a frente do carro. A tentativa de chegar mais depressa ao trabalho atrasara-o ainda mais. O seu seguro automóvel seria agravado, e teria que pagar o arranjo do seu carro porque o seguro não o cobria. Era culpado. Ia ficar sem carta durante um mês.
Atrasado e sem carro, restava-lhe tentar chegar o mais cedo possível ao emprego. Não tinha chapéu de chuva pelo que chegou ao emprego completamente encharcado. Faltavam 5 minutos para a sua reunião com um dos clientes mais importantes da empresa. A reunião correu mal, não estava concentrado. Perdeu o cliente. À tarde recebeu uma carta do banco a informá-lo que a sua casa ia ser colocada à venda num leilão para pagar as prestações em dívida. Apenas mais uma dívida a somar a tantas outras que se haviam acumulado nos últimos meses: o carro, a escola do filho, o cartão de crédito, a electricidade, e muitas outras.
Ao fim da tarde foi chamado aos Recursos humanos da empresa e informaram-no que fora despedido.
Não podia acreditar que tudo isto lhe estava a acontecer. O mundo desabava. Estava perdido, desorientado, angustiado, ENRAIVECIDO.
Caminhou sozinho para casa, angustiado, ENRAIVECIDO. Não sabia o que fazer. Apetecia-lhe morrer, desaparecer. Mas não podia abandonar a sua família. Caminhou desolado. Não reparava no caminho que seguia. Fazia-o de uma forma automática, inconsciente. Ia desatento, e ia sendo atropelado. Ficou ENRAIVECIDO. ENRAIVECIDO com o condutor que o ia atropelando. ENRAIVECIDO por não ter morrido.
Antes de chegar a casa decidiu parar no café da esquina. Precisava de uma bebida. Precisava de descontrair, de se acalmar, de aclarar as suas ideias. Precisava de pensar no que iria fazer da sua vida. Entrou. Viu um mesa vazia e sentou-se. Fez sinal ao empregado e pediu uma cerveja. Soube-lhe bem. Precisava de mais uma. Precisava de outra...... e outra...... e outra..... e outra..... e outra ........ e mais uma.
Uma hora depois, e 10 cervejas depois, saiu do café e dirigiu-se para casa. Entrou, posou a carteira, as chaves e o telemóvel em cima da mesa da cozinha. Sentiu o seu filho correr para ele. Ele vinha contente e a rir-se, deu-lhe o beijo na cara e disse-lhe: "Pai vi uns ténis muito giros, por favor compra-me os ténis.".
De repente sentiu-se novamente ENRAIVECIDO e desatou a bater no filho. Bateu, bateu sem parar, quando de repente o viu caido no chão inanimado. Tinha batido com a cabeça na parede e sangrava copiosamente. Agarrou no seu telemóvel e chamou uma ambulância: "Por favor Salvem o meu FILHO".
Agora alí estava ele na sala de espera da UCI, completamente desesperado. Era o responsável pelo fim da inocência do seu filho. Mas mais do que isso, tinha sido capaz do acto mais ignóbil, mais repudioso, repugnante, vergunhoso e odioso: Tinha batido numa criança, o seu filho.... o seu filho.
Não conseguia compreender como tinha sido capaz de cometer um acto tão hediondo, como podera bater daquela maneira em alguém tão inocente como o seu filho. O stress, os azares que estava a atravessar, não poderiam servir de desculpa para acto tão hediondo.
Ainda que um dia o seu filho o viesse a perdoar, ele nunca se perdoaria a ele próprio. Naquele dia tinha ultrapassado todos os limites.